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Trusts no Brasil: além do diferimento fiscal

Durante anos, a análise dos trusts estrangeiros no Brasil esteve condicionada pela insegurança jurídica e por suas possíveis vantagens fiscais. No entanto, o reconhecimento dessa figura nos âmbitos jurídico e tributário, juntamente com a Lei Complementar nº 227/2026, convida a repensar uma questão fundamental: qual é o verdadeiro valor de um trust quando o diferimento tributário deixa de ser seu principal atrativo?

No âmbito do imposto de renda, a Lei nº 14.754/2023 representou um marco ao incorporar expressamente os trusts constituídos no exterior à legislação tributária brasileira. Embora isso não implique sua regulamentação integral como instituto de direito civil, a lei estabeleceu regras específicas sobre a titularidade fiscal dos bens e direitos e sobre o tratamento tributário de seus rendimentos.

A mudança é significativa: já não se pode presumir que a constituição de um trust permitirá diferir automaticamente a tributação até a distribuição dos bens. Seus efeitos fiscais dependem das características da estrutura, dos ativos envolvidos e da situação das partes envolvidas.

No âmbito sucessório, a Lei Complementar nº 227/2026, que regulamenta o ITCMD após a reforma tributária, incluiu expressamente os trusts no campo de incidência desse imposto. Embora sua interpretação e aplicação prática ainda estejam em desenvolvimento, até o momento a leitura predominante parece ser a seguinte: em princípio, a transmissão de bens ao trustee não estaria sujeita à incidência do imposto.

O fato gerador ocorreria no momento da mudança de titularidade dos bens para o beneficiário ou no falecimento do settlor, o que ocorrer primeiro: como transmissão causa mortis, se decorrente do falecimento, e como doação, se ocorrida em vida. O fato gerador poderia, inclusive, ser considerado antecipado caso o settlor renuncie, em caráter irrevogável, a direitos sobre parcela do patrimônio do trust.

A base de cálculo é o valor de mercado dos bens. No caso de quotas ou ações não negociadas em mercado organizado, o valor mínimo corresponde ao patrimônio líquido ajustado pela avaliação de ativos e passivos a valor de mercado. Em outras palavras, tudo indica que o trust já não permite postergar o imposto sucessório para além do falecimento de seu settlor.

Mas reduzir sua utilidade a uma questão tributária seria ignorar um de seus principais pontos fortes: oferecer soluções para a administração, a continuidade e a transmissão ordenada do patrimônio.

Quando o patrimônio precisa continuar além de seu fundador

Pensemos em um empresário brasileiro com participações societárias e investimentos no exterior, cujas decisões patrimoniais dependem principalmente dele. O que aconteceria diante de uma incapacidade superveniente ou de seu falecimento?

Um trust corretamente estruturado pode estabelecer regras de administração e continuidade, definindo como os ativos serão geridos e em que condições determinadas decisões poderão ser tomadas.

O planejamento deixa, assim, de se concentrar apenas em quem receberá os bens e passa a contemplar como eles serão administrados quando seu fundador não puder mais fazê-lo pessoalmente.

Quando uma herança precisa de regras, e não apenas de beneficiários

Nas famílias de alto patrimônio, transmitir os ativos nem sempre significa distribuí-los de forma imediata. As gerações seguintes podem ter idades, responsabilidades, necessidades e níveis de preparo diferentes.

Um trust permite estabelecer mecanismos de administração e distribuição adaptados a essas circunstâncias, contemplando etapas de formação, necessidades específicas e objetivos familiares de longo prazo.

Dessa forma, o planejamento sucessório pode incorporar critérios que favoreçam uma transição patrimonial ordenada, sempre dentro dos limites estabelecidos pelas legislações aplicáveis.

Quando o patrimônio e a família ultrapassam fronteiras

Consideremos uma família cujo fundador reside no Brasil, alguns beneficiários vivem na Europa e os investimentos estão distribuídos entre os Estados Unidos e outras jurisdições.

Nesses cenários, o planejamento exige a coordenação de diferentes sistemas jurídicos, regras sucessórias, obrigações fiscais e mecanismos de administração.

Um trust pode oferecer uma estrutura de continuidade e gestão patrimonial internacional. No entanto, sua eficácia dependerá de seu reconhecimento e tratamento em cada jurisdição envolvida, bem como da coordenação com os assessores locais.

Uma nova perspectiva sobre o planejamento patrimonial

A evolução normativa brasileira transformou a análise dos trusts estrangeiros. Hoje é indispensável avaliar suas consequências tributárias desde o início, sem presumir benefícios automáticos nem soluções universais.

Mas as necessidades que justificam um planejamento patrimonial rigoroso permanecem: preservar a continuidade empresarial, organizar a sucessão, proteger os interesses dos beneficiários e facilitar a administração de ativos ao longo de gerações e fronteiras.

A pergunta essencial já não é apenas qual será o tratamento fiscal de um trust, mas qual problema patrimonial ele busca resolver e como deve ser estruturado para atender aos objetivos de cada família.

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Trusts en Brasil: más allá del diferimiento fiscal

Porque um bom planejamento não consiste apenas em antecipar impostos. Consiste também em decidir como queremos que nosso patrimônio continue ao longo do tempo.

Durante años, el análisis de los trusts internacionales en Brasil estuvo condicionado por la incertidumbre jurídica y por sus posibles ventajas fiscales. Sin embargo, el reconocimiento de esta figura en el ámbito jurídico y tributario, junto con la Ley Complementaria 227/2026, invita a replantear una cuestión fundamental: ¿cuál es el verdadero valor de un trust cuando el diferimiento tributario deja de ser su principal atractivo?

En materia del impuesto a la renta, la Ley 14.754/2023 marcó un punto de inflexión al incorporar expresamente los trusts constituidos en el exterior a la legislación tributaria brasileña. Aunque esto no implica su regulación integral como figura del derecho civil, la ley estableció reglas específicas sobre la titularidad fiscal de los activos y el tratamiento de sus rendimientos.

El cambio es significativo: ya no puede asumirse que constituir un trust permitirá diferir automáticamente la tributación hasta la distribución de los bienes. Sus efectos fiscales dependen de las características de la estructura, los activos involucrados y la situación de sus intervinientes.

En materia sucesoria, la Ley Complementaria 227/2026, que regula el ITCMD tras la reforma tributaria, incorporó expresamente a los trusts en el ámbito de este impuesto. Si bien su interpretación y aplicación práctica todavía están en desarrollo, hasta la fecha la lectura predominante parece ser la siguiente: en principio, la transferencia de bienes al trustee no estaría alcanzada por el impuesto.

Este se generaría cuando los bienes pasen al beneficiario o cuando fallezca el settlor, lo que ocurra primero: como transmisión causa mortis si se produce por fallecimiento, y como donación si ocurre en vida. El hecho generador incluso podría considerarse anticipado si el settlor renuncia de forma irrevocable a sus derechos sobre parte del patrimonio del trust.

Los bienes se valúan a valor de mercado. En el caso de participaciones societarias no cotizadas, el valor mínimo corresponde a su patrimonio neto ajustado a valor de mercado. En otras palabras, todo indica que el trust ya no permite postergar el impuesto sucesorio más allá del fallecimiento de su settlor.

Pero reducir su utilidad a una cuestión tributaria sería desconocer una de sus principales fortalezas: ofrecer soluciones para la administración, continuidad y transmisión ordenada del patrimonio.

Cuando el patrimonio debe continuar más allá de su fundador

Pensemos en un empresario brasileño con participaciones societarias e inversiones internacionales, cuyas decisiones patrimoniales dependen principalmente de él. ¿Qué sucedería ante una incapacidad sobrevenida o su fallecimiento?

Un trust correctamente estructurado puede establecer reglas de administración y continuidad, definiendo cómo se gestionarán los activos y bajo qué condiciones podrán adoptarse determinadas decisiones.

La planificación deja así de concentrarse únicamente en quién recibirá los bienes y comienza a contemplar cómo se administrarán cuando su fundador ya no pueda hacerlo personalmente.

Cuando una herencia necesita reglas, no solamente beneficiarios

En las familias de alto patrimonio, transmitir los activos no siempre significa distribuirlos de manera inmediata. Las siguientes generaciones pueden tener distintas edades, responsabilidades, necesidades y niveles de preparación.

Un trust permite diseñar mecanismos de administración y distribución adaptados a esas circunstancias, contemplando etapas de formación, necesidades específicas y objetivos familiares de largo plazo.

De esta manera, la planificación sucesoria puede incorporar criterios que favorezcan una transición patrimonial ordenada, siempre dentro de los límites establecidos por las legislaciones aplicables.

Cuando el patrimonio y la familia trascienden fronteras

Consideremos una familia cuyo fundador reside en Brasil, algunos beneficiarios viven en Europa y las inversiones están distribuidas entre Estados Unidos y otras jurisdicciones.

En estos escenarios, la planificación exige coordinar diferentes sistemas jurídicos, normas sucesorias, obligaciones fiscales y mecanismos de administración.

Un trust puede aportar un marco de continuidad y gestión patrimonial internacional. Sin embargo, su eficacia dependerá de su reconocimiento y tratamiento en cada jurisdicción involucrada, así como de la coordinación con los asesores locales.

Una nueva perspectiva sobre la planificación patrimonial

La evolución normativa brasileña ha transformado el análisis de los trusts internacionales. Hoy resulta indispensable evaluar sus consecuencias tributarias desde el inicio, sin asumir beneficios automáticos ni soluciones universales.

Pero las necesidades que justifican una planificación patrimonial rigurosa permanecen: preservar la continuidad empresarial, organizar la sucesión, proteger los intereses de los beneficiarios y facilitar la administración de activos a través de generaciones y fronteras.

La pregunta esencial ya no es solamente qué tratamiento fiscal tendrá un trust, sino qué problema patrimonial busca resolver y cómo debe diseñarse para responder a los objetivos de cada familia.

Porque una buena planificación no consiste únicamente en anticipar los impuestos. También consiste en decidir cómo queremos que nuestro patrimonio continúe en el tiempo.

 
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